domingo, janeiro 27, 2002

"Existe muita tristeza na Rua da Alegria
Existe muita desordem na Rua da Harmonia
Analisando essa história
Cada vez mais me embaraço
Quanto mais longe do circo
Mais eu encontro palhaço

Cada vez mais me embaraço
Analisando essa história
Existe muito fracasso
Dentro do Largo da Glória
Analisando essa história
Cada vez mais me embaraço
Quanto mais longe do circo
Mais eu encontro palhaço"

Ismael Silva, cantado pela Dalva Torres
(linc) (linc)

quarta-feira, janeiro 23, 2002

do estadão:

"O presidente dos EUA, George Bush, manifestou "orgulho" pela forma como estão sendo tratados os prisioneiros de guerra capturados no Afeganistão e levados para a base norte-americana de Guantánamo, em Cuba. "Vocês (congressistas) deveriam estar orgulhosos. Nós continuamos a proteger a nossa gente", disse o presidente.

Em reunião com congressistas na Casa Branca, Bush bateu na mesa ao dizer que a manutenção dos prisioneiros de guerra na situação atual - algemados, vendados e em jaulas sem proteção contra a chuva - tem o objetivo de garantir a segurança das tropas norte-americanas que estão de guarda.

Os EUA vêm sendo criticados pelo tratamento dado aos prisioneiros de guerra, chamados oficialmente de "detidos" para que não tenham os benefícios previstos nas Convenções de Genebra. Eles estão sendo mantidos em Guantánamo porque a base não é considerada território norte-americano - onde os prisioneiros passariam a ter direitos protegidos pelas leis dos EUA."

quinta-feira, janeiro 17, 2002

darcy, cidade do méxico, lá por 1952:

"Sofri na minha primeira viagem ao México meu primeiro terremoto. Nem sofri, tão ignorante eu era. Cheguei ao hotel depois de um pileque de tequila e fui dormir. Acordei à noite, achando que a tequila era um bebida terrível, porque eu via todo o quarto se mover, tão bêbado estava. De manhã verifiquei que a cama estava do outro lado do quarto. Tinha havido um terremoto que até derrubou uma torre com um anjo em cima, um dos símbolos da Cidade do México.

Sofri tudo sem saber de nada, porque gente de Montes claros não tem notícia do que é terremoto. Lá, um tremorzinho, muito antes de eu nascer, fez um comerciante enrolar todas suas garrafas com um fio de arame, que lá ficaram. Todo mundo ia ver o que aquele homem besta tinha feito, enrolar suas garrafas com medo de a terra tremer."
mais do darcy, em paris, 1954:

"Ocorre então um caso formidável, ao menos muito lembrado por mim. Conheci uma menina paulista de uns vinte anos que ganhara uma bolsa da Aliança Francesa. Lá estava ela fazendo de conta que estudava, isolada do mundo francês, vivendo na rive gauche, com um feio complexo de ser a única virgem da redondeza. Quis aliviá-la e saí mais de uma vez com ela, mas a danada não me dava. Ia até o seu quarto, bolinava, mas a certa altura ela me punha pra fora. Vi ali, pela primeira vez, como se deve usar um bidê, porque ela tinha aprendido e, em vez de usá-lo de costas, como faz a brasileira, ela montava a cavalo nele de frente para as torneirinhas. Achei bonito, ensinei a muitas amigas brasileiras o bom uso dessa peça indispensável à civilizada.

O caso que eu ia contar é que a paulistinha, já no meu último dia, prometeu que ia me dar e que até queria. 'Melhor que seja com você', me disse ela.

Mas ficou remoendo, não querendo tomar o metrô que ia para a casa dela. Afinal, tomamos o último metrô. Antes de tomá-lo, porém, a imbecil me empurrou para cima dos trilhos e eu me vi morto. Gritava e tentava subir, mas ela me pisava nas mãos. Subi afinal e lhe dei uma surra. Chegou então o metrô e fomos para a casa dela. Tudo aconteceu carinhosamente, como é devido." (p. 214-215)
darcy ribeiro, ao mesmo tempo que terminava o melhor livro que li em 2000, "o povo brasileiro", também escreveu esse daí do lado, de memórias, "confissões". o melhor livro que li em 2001 e também em 2002, afinal, virei o ano lendo. tricampeão, portanto.

darcy era foda. além de carreiras como político, antropólogo e acadêmico invejáveis, desenvolveu uma das visões mais claras do país que já encontrei. aprendo com ele.

além disso, não é qualquer um que consegue viver a vida gostando tanto e com uma ironia tão fina. segue aí um pedaço:

"O melhor de Freiburg foi um jantar num restaurante que me redomendaram no hotel como o melhor da cidade, que ficava relativamente perto. O maître chegou, me apresentou o cardápio, eu olhei sem entender nada e pedi o prato mais caro. Ele comentou alguma coisa em alemão, eu disse 'ai, ai', e ele saiu. De vez em quando olhava para mim. o cozinheiro, com seu chapelão, também saiu para olhar, mas eu estava lá, firme, esperando o prato para saber o que tinha pedido. A certa altura, me trouxeram uma oficina mecânica, ou seja, uma tábua cheia de pinças, alicates, serra, o diabo mais. Ferramental que eu não imaginava para que servisse. Deixou lá na mesa.

Mais tarde ele trouxe três cachepôs, ou seja, três pratos enrolados em papel crepom, e eu fui ver o que era, arrisquei o olho. Eram saladas de chucrute, de beterraba e de batata. Fiquei esperando, não podia ser isso por aquele preço exorbitante. Afinal, o maître falou comigo, não entendeu nada, nem eu. E foi lá falar com o cozinheiro. Veio então me trazendo o que eu tinha pedido. Era uma enorme de uma lagosta apenas cozida. Olhei espantado para aquele bicho inteiro com cheiro de mar, e o homem, vendo a minha estranheza, usou aquele ferramental para desvestir a lagosta, tirar pedaços e pôr no meu prato junto com as diversas saladas.

Eu, então, pedi um vinho. Escolhi um que ele me recomendou, vendo por sua cara que era muito bom. Tomei aquele vinho, que aliás era tinto. Eu esperava um branco. Paguei a conta e saí. O maître deve ter comentado com seus amigos: 'Esteve aqui um selvagem'." (p. 212-213)